quarta-feira, 13 de abril de 2011

Coisas de Mutuipe

Nunca mais

Em frente a venda do Sr. Zozimo, conhecido como “seu Zozimo” , marido de Dona Cizinia ou nome parecido. Em frente a venda havia o jardim da cidade com seus bancos e coisas que todos os jardins têm ou não.
Difícil falar daquele jardim de tantas coisas legais e outras tantas comuns que o compunham...
Quem se lembra de um monumento chamado de “bomba”, nome dado devido a virtuose do seu desenho monumental, era simplesmente uma parede de aproximadamente um metro e sessenta de altura por um metro de largura, onde havia uma placa comemorativa de mármore branco, não me lembro o que estava escrito, mas quem lembrar mim conte, a “bomba tinha um passeio de cimento com uns dois metros quadrados, onde todos nos íamos em algum momento, sentar, deitar, conversar, aquilo era feito para conjugação de verbos em todos os tempos... Uma imagem que me vem da bomba e de Edy ouvindo musica em sua radiola vermelha, lps espalhados pelo passeio e meninas ao lado ouvindo musica, mas... Todas sabiam que todo cuidado era pouco, afinal tratava-se dele, dele mesmo.

Então a venda de “Seu Zozimo” que era um sonho para nos, olhava-se para cima e podia se ver navios, carros, bonecas, violões, tambores, panelas, bacias, candeeiro, jarras de suco, canecas de todo tipo, o mundo estava pendurado em cordões no telhado daquela venda e todas as prateleiras, lotadas e o balcão com fumo de rolo, chumbo para espingarda, pólvora, e querosene em retalho.
Mas a alma de tudo aquilo habitava em Dona Cizina, sempre agitada a andar para lá e para cá e sabia de todos os preços e nunca ficava uma mercadoria sem o preço, pois se não tinha ela precificava com maestria, representá-La é algo que requer estudo.

E mais ou menos em frente a venda de “seu Zozimo” no jardim havia uma arvore muito singular.
Em uma época do ano ela dava flores exóticas que pediam de um talo e pareciam uma bola rosa e meio bege, suas folhas eram em forma de coração de um verde sumo, com uma lã em toda sua extensão, e como a flor, a folha tambem pendia de um talo.
Não sei o nome da arvorezinha, mas era de pequeno porte, retorcida e por muito tempo era ela única e absoluta para todos nos, até que um algoz em nome de alguma burrice a matou.
E o jardim em meio aos flamboyants que tingiam de vermelho passeios e grama e nela por vezes pequenas estacas de madeira ou pregos de trilhos de trem que outrora fumegam por lá, pequenas cordas prendiam galos de brigas, que prenunciavam um look punk de tão exóticos, e por vezes seus donos promoviam uma briga para exercitar os galos, era fascinante.
Também naquele jardim nunca mais veremos D. Cacilda sentada a sua porta como que contemplando o vento derrubando as flores vermelhas dos flamboyants a seus pés, e os transeuntes conhecidos e desconhecidos não terão mais seu cumprimento cordial, e nem ninguém mais, a contemplara de qualquer ponto do jardim.
Pobre jardim...

Um comentário:

maryse disse...

Ei, Nato, só prá ajudar a caracterizar a figura folclórica de D. Sizínia: ela é a dona da insesquecível frase "di tchê tchêm, mas é ótiênta"!!!
Nesse novo momento da nossa existência nos percebemos sensíveis e valorizando detalhes até então insignificantes da nossa infância ou adolescência. A radiola e os elepês de Edy, as flores da árvore, a variedade de mercadorias penduradas no teto da venda de Sr. Zózimo etc.
E o que dizer ao ver o espaço vazio ocupado por nossas casas??? Meu coração sangra... Nossas casas foram demolidas assim como a de D. Argemira, a de Otávio Souza, a de Moisés Andrade e outras mais terão o mesmo destino. Sinto muito e só nos resta aceitar a força da mudança.
Parabéns pelo seu trabalho. Tem sido fiel ao seu mestre Véi Dáro.
Bjs